A Foggy Day in London Town

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sábado, 27 de junho de 2009

O Marquês e o vendedor de ostras

sábado, 27 de junho de 2009 0

O Marquês Pedepanno é um tipo que gosta de ir à praia, mas se enfurece quando resolve chover nos dias em que decide ir. Certo dia, cansado do tom branco neve da pele da Marquesa, resolveu com seus próprios botões (que não são poucos) que iria à praia dar um “quê” de jambo à sua pele. Em dias de ir à praia o marquesado ficava praticamente como hotel da seleção brasileira em dia de jogo de copa do mundo. Mobilização total. Dezenas de súditos correndo pra todos os lados. Sem contar as incontáveis comitivas que se preparavam para ir antes anunciando a chegada do Marquês, e a comitiva de CET (clima e temperatura) que já deveria estar na praia quando o Marquês sonhasse com essa idéia (para isso existe o setor de PIM – pensamento e intuição do Marquês, encarregado antecipar todas as vontades do nobre). Lembro-me que no último verão, uma confusão causada por um estagiário daltônico do CET fez com que a marquesa levasse seu biquíni azul em vez do verde perolado que a água fazia naquele dia... Pobre estagiário, até hoje vaga cego por entre os becos do marquesado. A praia ficava a alguns quilômetros do castelo do Marquês e se fazia necessário sair umas tantas horas antes que o casal acordasse. Era um grande trabalho para a equipe de CMD (carregamento do Marquês-dormindo) fazer logo cedo. Durante o trajeto, lá pelas nove e tantas, ao acordar, o Marquês balbucia:

- Benzinhôoo... Bom dia! Veja que sol mais lindo e brilhante que separei só pra você... (sons de pássaros eram ouvidos... Ah, esqueci de dizer, eles eram colocados na gaiola propositalmente na janela do quarto-móvel para cantar ao acordar dos marqueses)

- Cala a boca Pedepanno e me deixa dormir. Minha pele vai ficar um horror se eu acordar antes das 10. Parece que não sabe...

- Mas benhê, hoje é dia de praia. Que tal se você colocasse aquele fiozinho-dental que te deixa mais gostosa, hein, hein?

- E deixar à mostra as duas celulites horrorosas que me apareceram? Nunquinha. Deixa eu dormir meu sono da beleza senão o tempo vai fechar e não vai ter praia pra ninguém.

O Marquês, muito perspicaz em termos de Marquesa, fez o que o mais sábio dos homens faria na mesma situação... Fechou as cortinas e foi para fora do cômodo, sem incomodar a marquesa – já pensando na manutenção dos seus testículos no lugar onde estão. E foi contemplar a beleza da paisagem.

- Que belo sol hein Sócrates? (falou o Marquês para Sócrates, o PCR (piloto de carruagens real). Quanto tempo temos antes de chegarmos ao mar?

- Seu dotô é o seguinte: dada em vista as considerações contemporâneas e as estatísticas das últimas 15 viagens à praia, acredito que em 33 minutos e 17 segundos estaremos em terreno arenoso.

O Marquês prezava pela precisão das informações e costumava punir severamente os erros, divergências e assincronias. A maioria dos comandantes de embarcações, pilotos, navegantes e comissários de bordo passavam por um treinamento rigorosíssimo de planejamento estratégico de viagens. Ao final de 33 minutos e exatos 17 segundos estavam o Marquês Pedepanno e sua senhora na praia – Ah! O Paraíso.

- Pedepanno, passe bronzeador nas minhas costas.

- É pra já! Meu docinho de damasco grego.

- Pedepanno... Isso é – bronzeador – e não catchup. Não precisa gastar o vidro todo.

- Bem que poderia ser um daqueles óleos corporais com sabores exóticos. Eu não me incomodava nem um pouco de lamber todinho depois...

- Tira a mão daí e sai da frente, você está tapando o sol inteiro com essa sua pança real.

Quando algum nobre chegava à praia era um alvoroço só. Incontáveis vendedores ambulantes se enfileiravam para oferecer algum produto ou serviço. Eram camarões, guaiamuns, mariscos, batata-frita e toda sorte de penduricalhos e artefatos produzidos pelos locais. Mas o marquês só ficava esperando um deles... O de ostras. E esperava avidamente, como uma criança que sabe que vai ganhar um brinquedo. O Marquês era tarado em ostras. Contam as lendas que algum dia no marquesado o nobre Pedepanno cismou da caçoleta que tinha que comer ostras flambadas no café da manhã. Imagine só que um coitado de um estagiário do PBO (pratos à base de ostras) teve que se virar pra comprar ostras na baixa estação – e das grandes. Dizem que até a mãe do pobrezinho entrou na negociação. E não foi pra argumentar com o vendedor não, foi como pagamento pelas ostras. Finalmente, depois de uma longa fila de vendedores, chega o tão esperado ostreiro. Os olhos do Marquês brilham e a baba escorre pelo canto dos lábios.

- Vai uma ostra ai seu Marquês?

- Quanto custa?

- Tá na promoção. Duas por dez patacas.

- Promoção? Vão te promover a gerente? Só se for, por esse preço. O que é isso? Compre uma ostra e financie 8 refeições na Somália?

- Ô seu Marquês, a “cuestão” é que essas “ostrinha” aqui são “tratada” à pão-de-ló e ração da mais pura pureza da região. E tem a patroinha e os “pirráia” lá em casa pra dar de comer. Sabe como é, o IPI reduz, a gente compra geladeira, mas continua sem ter o que pôr dentro. Sem contar o mau estado das “bolsa de valô” e a “dscaptalização” do “eterocentro” econômico do nosso marquesado que “num” tá com essas bolas todas.

- Tudo bem, também não precisa chorar, eu entendo sua preocupação e minha fome. Vou fazer vista grossa a esse superfaturamento só porque aquela ostra ali está sorrindo pra mim.

O Marquês Pedepanno não só entendia dos problemas financeiros do seu marquesado como era o autor da maioria deles. No mês anterior, em visita à sua fábrica de artesanatos do mundo, ele notou uma diminuição na venda de leques indianos (uma imitação muito bem feita, baseada em modelos autênticos trazidos pelo marquês e sua esposa daquela mesma viagem à índia). Dada essa situação, resolveu entrar na moda do toma-lá-dá-cá e diminuiu o IPI (imposto sobre produtos impostos – uma espécie de cesta básica compulsória descontada em folha de todos os empregados remunerados financeiramente do marquesado). Em contrapartida fez um justo decreto obrigando todos os beneficiados com a redução do IPI a converter o valor economizado em leques indianos artesanalmente produzidos pela fábrica do Marquês.

- “Compreta?”

- Com tudo, azeite, sal, cominho e limão – pouca pimenta.

Os olhos do Marquês brilhavam e a ostra descia escorregando por sua garganta como um manjar dos céus. E mais outra, outra e outras. Assim foi durante grande parte da tarde. Depois de gastar mais de 300 patacas em ostras, o Marquês resolveu parar. Tendo em vista que ele já não conseguia mais nem respirar direito, há de se convir que foi uma quantidade suficiente. Na volta pra casa, esparramado nas almofadas reais, Pedepanno balbuciava um gemido estranho e a delicada Marquesa observava:

- Pedepanno, que *&$%$ de posição é essa? E que manchas são essas no seu rosto? Argh! Pedepanno, que cheiro horrível. Podia se controlar, ou ao menos abrir as cortinas?

- Â câm ô d´s Tom...

- Fala direito “porra”. Tá com dor de estômago? Acho é pouco. Você já viu o tamanho da sua barriga pra querer ter o olho maior que ela? Faça um favor pra nós dois e pra camada de ozônio e se tranque no banheiro.

Pedepanno chorava, gemia, e não conseguia se mexer. Nem falar alguma coisa inteligível. Conta-se que durante muitos anos os Bardos do marquesado cantaram canções que narravam a trajetória triste da volta do Marquês depois daquele ensolarado dia de praia e de infecção intestinal. Surgiram canções a respeito das 300 “potocas” em seu corpo, uma para cada “pataca”. Outras sobre as paradas no mato e os urros que ecoavam por todo o marquesado. Durante duas primaveras a palavra “ostra” foi proibida nos diálogos por lá e conta-se que foi nessa época que surgiu o termo “aquecimento global”...


 
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