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terça-feira, 18 de maio de 2010

Crítica: Lula, o filho do Brasil

terça-feira, 18 de maio de 2010 0
Lula, o filho do Brasil detém alguns atributos que oportunamente só poderiam ser aplicados à biografia do nosso ostentoso presidente. É a produção nacional mais cara da história, custando 12 milhões de reais arrecadados sem nenhum recurso governamental (segundo os produtores). É também a mais unilateral visão de um personagem político tão polêmico como Lula, fiel representante das massas que foi do nada à presidência de uma das maiores potências entre os países em desenvolvimento do mundo. Por último, mas não por fim, é a mais “emocionante” história de um filho cuja trajetória só encontrou sentido nos passos da sua mãe.
Baseado no livro homônimo da jornalista Denise Paraná, o filme apresenta o que seria a primeira parte de uma saga sobre a vida de Luis Inácio da Silva. Esta fase compreende desde o seu nascimento, passando pelo amadurecimento como homem pelas mãos de Dona Lindu (sua mãe, impecavelmente interpretada por Glória Pires) após a família ser abandonada pelo pai e chegando à apresentação do Lula sindicalista, carismático, que se prepara para a longa jornada que seguirá até chegar à chefia do Estado maior.
É notório que o diretor Fábio Barreto não conseguiu se livrar os clichês nordestinos encontrados em qualquer filme que se passe ou tenha uma parte no universo sertanejo, seja ele Central do Brasil ou Lula, o filho do Brasil. A produção é carregada de jargões e lugares-comuns. Segue do sofrimento à superação, do pau-de-arara para a firmação, sempre enaltecendo as excelentes qualidades do nosso bondoso velhinho de barba. É como se o Duda Mendonça tivesse conhecido Lula ainda na infância e o tivesse feito herói já naquele tempo.
O roteiro se preocupa (e gasta) boa parte do tempo encaixando os romances da vida de Lula. Desde a sua primeira mulher (Lurdes, interpretada por Cléo Pires) que morreu no parto junto com seu filho até o encontro com a viúva Marisa (Juliana Baroni), sua esposa até os dias de hoje. Mas nem mesmo o pieguismo consegue tirar de cena Dona Lindu, que por muitas vezes parece protagonizar a narrativa. Caso se tratasse de uma produção exclusivamente pernambucana, seria capaz de afirmar que o filme foi feito para justificar o batismo do parque faraônico com o nome da mãe do presidente, que segue até a morte com sua enxurrada de frases feitas e ditos populares.
Não poderiam faltar os discursos feitos para as multidões de operários, quando a perda do seu dedo mindinho o fez transformar-se de metalúrgico em líder sindical, ressaltando a sua simpatia e carisma e escondendo todo o plano político que começava a se formar. Essa fase é brindada com imagens de arquivo, recortes de jornais e trechos de matérias televisivas da época que no meio de tanta profusão de informações aleatórias acabam por pagar o ingresso
Para o ator Rui Ricardo Dias sobrou o trabalho de interpretar Lula e seguindo a tradição de papéis marcantes no cinema, vai carregar por muitos anos o estigma de ser o Harry Potter canarinho. Nota-se que ele tem uma preocupação de imitar a fala do presidente, com uma voz rouca e de língua presa que até se confunde com a do original. Pena que a direção não atentou para esse detalhe que acaba sendo esquecido do meio pro fim. Sessões de fonoaudiologia? Está mais pra erro de continuidade mesmo. A parte visual merece maiores elogios. Recursos de imagens foram bem aplicados pela acertada direção de arte de Clóvis Bueno e de fotografia de Gustavo Hadba. A trilha sonora, de António Pinto, casou com o ar melancólico e nostálgico do filme. Palmas para a trilha, não para a exacerbada melancolia.
O grande fator cansaço do filme é a inexplicável persistência em mostrar a trajetória de liderança e as constantes vitórias que qualquer um nascido até os anos 80 sabe bem que não foi lá tão perfeita. A garra de um homem que sem nenhum recurso e apesar das adversidades conseguiu realizar seus sonhos, grande mensagem da produção, pode ser recortada e colada na vida de uma centena de personagens históricos. Peço licença pra afirmar por minha conta que acho que Barack Obama assistiu ao filme achando que era um portfólio de Lula e por isso o chama de “O Cara”. Nunca antes na história deste país foi visto um homem tão politicamente correto em sua carreira profissional, nem tão polido em sua vida pessoal.
A consequência disso tudo foram inúmeras críticas acusando o filme de ser político e eleitoreiro que afetaram diretamente a bilheteria. Cerca de 193 mil pessoas foram aos cinemas em sua estréia. Nada muito preocupante, mas que o deixam bem atrás de outras produções brasileiras, algumas muito mais baratas. Chico Xavier, por exemplo, teve 590 mil expectadores em sua estréia; Dois Filhos de Francisco, 315 mil. Se eu fosse você 2, 570 mil. É bem provável que o sucesso fosse maior se a tentativa de transformar o homem em mito viesse depois e não antes de sua martirização.

Assista ao trailer:




 
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