A Foggy Day in London Town

A Foggy Day in London Town

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Às vezes é preciso matar a fome com a vontade de comer

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Certo dia em uma terra afastada dos lulismos do cotidiano, um homem acordou de manhã bem cedo, antes mesmo do sol nascer. Esquentou um pouco de água e coou seu café que já estava no filtro desde a noite anterior. Tomou em pequenos goles aproveitando cada um como se fosse o último. Preparou sua carabina e antes de sair abriu a porta do quarto do seu pequeno filho e lhe beijou a testa repetindo a mesma frase de todos os dias – filho, cresça e seja um bom homem. Como de costume ele caçou, caçou e caçou. Já próximo do meio-dia, ao retornar para casa com as duas pequenas lebres que conseguiu capturar penduradas em seu alforje, escutou um barulho de multidão. Saindo um pouco de seu caminho habitual foi ao encontro daquelas pessoas e ouviu atentamente o que pregava um deles em uma tribuna improvisada com caixotes. Escutou histórias fantásticas sobre grandes farturas, comida suficiente sem precisar caçar, café em abundância sem ter que plantar e outras tantas coisas magníficas que até então só tinha ouvido nas histórias de ninar contadas por mãe. Para conseguir ter tudo isso ele só teria que abrir mão da sua carabina e uma vez por ano colocar em uma caixa que ficava no meio da praça o nome daquele homem que os falava. Achou justo e assim o fez. Deixou a carabina ao pé do palanque e voltou para sua casa largando no caminho as duas magras lebres que engordariam o seu ensopado.

Desde aquele dia tornou-se habitual uma comitiva vir de tempos em tempos até a sua porta e deixar uma quantidade de comida suficiente para ele e seu filho se alimentarem até a próxima entrega. Muitos anos passaram, seu filho cresceu e como não tinha mais a carabina, não pôde o ensinar a caçar como tinha feito seu pai consigo. Tudo o que o pequeno, agora grande, sabia era esperar o dia da comida chegar e sonhar. Em um ano de inverno rigoroso, pai e filho aguardavam ansiosamente a chegada do alimento que desta vez teria que ser bem farto, pois nunca tinha se ouvido falar em um inverno daqueles. Mas a comitiva não veio. E esperaram e esperaram e nenhum sinal. De repente viram que não tinham mais comida e também não tinham forças para ir até a comunidade buscar informações. O pai, já velho, lembrou vagamente do que fazia antes de entrar em acordo com aquele pregador de promessas. A lembrança veio com saudades de quando saia de casa todos os dias abençoando seu filho e com o pesar de não ter mais a velha carabina. Sentiu calafrios ao pensar que não adiantava pedir ao filho que fosse sentir por si próprio o calor e a dignidade de buscar na natureza o alimento, pois o garoto, agora homem, só sabia sonhar e esperar.

Emagreceram quilo a quilo, dia a dia, os dois, um olhando para o outro. O pai chorava por dentro e o filho, que nada tinha por dentro além de fome, chorava por fora. Não se sabe se aquele velho morreu de inanição ou desgosto, esquecido pela comitiva que nunca mais passara. Mas se sabe que o filho nem pôde enterrar o pai porque não tinha forças e definhou tão esquecido quanto ele, enquanto seu estômago estrangulado de fome era o único sinal físico de que não iria poder realizar seus antigos sonhos. Morreu sonhando com a única imagem que ainda lhe restava: a velha comitiva chegando com o mais farto banquete que já vira.

Sentir fome hoje em dia é anti-social e antiquado. Foi-se o tempo em que quem tinha fome tinha pressa. Nas atuais conjunturas nacionais a falta do que comer foi substituída pelo queijo suíço das políticas públicas de assistencialismo. Embora essas ações sejam maravilhosas aos olhos, acabam sendo insatisfatórias a quem deviam mesmo agradar – os estômagos.

Fome Zero e Papelão. Fonte: blogdafome.blogspot.com
Enquanto o governo prega o fim da miséria e da inanição, o país se enche de buchos vazios que circulam por ai como os pequenos animais recém-nascidos que aguardam o alimento cair na boca até que aprendam a caçar com as próprias forças. Mas com uma sutil diferença entre os bichos-bichos e os bichos homens. No nosso caso as tetas que fornecem a comida ficam tempo demais alimentando a cria, que não aprende a buscar a sua própria. A partir do momento em que não passar fome virou sinônimo de barriga cheia, o parâmetro da necessidade de trabalhar subiu de zero para um salário mínimo e com isso voltamos a sentir fome. Não somente a fome alimentar que o nosso cérebro reporta como um grande aperto no estômago e uma fadiga sem fim, mas a necessidade de ter mais. E como ter mais se não sabemos de onde veio o pouco que se tem nem tampouco o valor disso?

Se baixarmos a guarda para as políticas assistencialistas vamos nos tornar para sempre caçadores esquecidos, sem armas e sem forças, escravos de uma comitiva de benefícios que nos custam somente a honra e nada mais. Depois será somente rezar para que tomem conta das nossas vidas, pois elas já não nos pertencerão. Para nós ficará somente o vazio da fome matada pela vontade de comer o que colocamos com as próprias mãos na mesa enquanto saboreamos o prato frio das promessas de dias melhores.

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